André Tavares
27/05/2020

Um Encontro na Cidade

A cidade está dormente, mas não repousa. Nesse estado de retração nervosa, contrai-se contrariada, recalcada e sem poder dar vazão a toda sua força motora. Suas vias, ruas, avenidas e marginais não estão saturadas e hipertensas, grossas de veículos resfolegantes, cavalos e cavalos de potência mal contidos, impedidos de desenvolver velocidade. Estão anormalmente calmas, relaxadas, deixando fluir o tráfego como se todo dia fosse domingo, numa metrópole que desconhece um dia sabático. Seus habitantes, uma gigantesca massa anônima, caminham sobressaltados e poucos, pensando nos rostos uns dos outros, que agora já não podem ver. São Paulo espera o retorno da pulsação frenética, mas sonha também em uma nova forma de ser urbe.

Num espaço de encontros aleatórios, impessoais e abruptos, quase todos se retiram para o espaço doméstico, cuidando de sua segurança, apreensivos quanto às possíveis privações futuras. O medo do sofrimento solitário, desamparado, esquecido - “será que alguém se lembrará de mim?” A doença evidenciou a desagregação, a ausência de laços comunitários, afetivos e dos compromissos de solidariedade e responsabilidade uns com os outros. Onde pedir ajuda? Com quem contar? A quem recorrer? O medo assoma-se à medida em que se revela diante de cada um a realidade triste da atomização e serialização.

Atomização? Sim. É o que acontece quando nos individualizamos tanto, desprendendo-nos tanto dos outros, das nossas famílias e comunidades, que nos tornamos átomos, unidades soltas no espaço social. Mas os átomos também não se dão às ligações, formando, por exemplo, moléculas e estruturas muito maiores? Novamente, sim. Mas, vejamos, um elemento num construto desse tipo pode ser substituído por qualquer outro com as mesmas características. E são qualidades tão gerais, tão comuns, que retiram qualquer personalidade. É a serialização: peças, séries idênticas e homogêneas, descartáveis e substituíveis.

Nessa crise, nesse cenário cinza, depressivo, que resposta se nos oferece? Aliás, qual a resposta judaica para o desespero e a falta de esperança? Primeiro, ser um “mensch”. O que é um “mensch”? Uma pessoa descente, correta; alguém inabalável em seus princípios e valores, que não se abala diante das circunstâncias. Um “mensch” permanece quando todos desaparecem. Um “mensch” é um testemunho de que os preceitos fundamentais não mudam e não podem ser esquecidos. Segundo, é reconhecer e tratar o próximo como uma pessoa revestida da dignidade que Deus lhe concedeu. A vida do outro é manifestação da santidade e precisa ser acolhida e servida em suas necessidades, compreendida em sua situação e incentivada em seu desenvolvimento.

A resposta judaica é “seja uma pessoa, manifeste os dons, habilidades e competências que Deus deu a você para servir aos outros, à sua comunidade”. É o antídoto, o remédio contra a atomização e a serialização: não estamos soltos no mundo, e somos únicos e insubstituíveis.

A Sinagoga Sem Fronteiras tem sua sede nessa metrópole entristecida. Pequena e modesta, eleva-se como um exemplo, não pela amplitude de suas ações, mas por não se furtar ao seu dever. Em sua humildade e limitações, essa comunidade, liderada pelo Rabino Gilberto Ventura e pela Rabanit Jacqueline, moveu-se, fez contatos, encontrou parceiros e gente de mesmo espírito, reuniu recursos para aliviar o sofrimento de, pelo menos, algumas pessoas e famílias. Tudo isso acontece numa rede orgânica de relacionamentos construídos e fortalecidos há muito tempo. A virtude não surge instantaneamente na adversidade; é desenvolvida e manifesta-se no caminho, no deserto, na vivência contínua e perseverante.

E nesse deserto de concreto e asfalto, onde, agora, até os protagonistas sumiram e os figurantes perderam seus rostos, o que acontece com as comunidades e grupos “invisíveis”? Já inexistentes para o poder público, estigmatizados e discriminados pela sociedade, como passam por essa tribulação? Para quem o sofrimento é parte da normalidade, esses tempos são ainda mais cruéis. Exatamente por isso, ser procurado por essas pessoas é uma benção. E isso aconteceu com a Sinagoga Sem Fronteiras.

Em São Paulo há quilombos, legítimas aldeias indígenas, comunidades tradicionais e alternativas, colônias de imigrantes e refugiados de países pobres. Tem uma enorme população socialmente vulnerável. Graças a Deus, nossa sinagoga e movimento são uma referência consistente para alguns desses grupo, e na relação desenvolvida em circunstâncias diversas, as conexões se expandiram para além das fronteiras locais e o relato da situação de algumas comunidades de povos tradicionais chegou até o nosso movimento. A amiga Maria del Rosário Amaral, sabendo da atuação e disposição da Sinagoga Sem Fronteiras, compartilhou o drama de dois grupos indígenas na região. Prontamente o Rabino Gilberto abraçou a causa e dispôs-se a ajudar. Recebemos o Eduardo e a Ana Maria Kariri, representando comunidades guarani e kariri.

A beleza da solidariedade genuína é que proporciona encontros dialógicos. A vinda dos irmãos Eduardo e Ana proporcionou não somente o envio de ajuda a quem precisa, mas trouxe até nossa comunidade, para nossa realidade, a presença de pessoas cuja existência e história desconhecíamos em parte. Receber e acolher é alargar as tendas. Alargar as tendas é tornar o mundo em que vivemos um lugar melhor, mais humano e justo. E nos torna conscientes de aspectos do nosso entorno que eram ignorados.

Eduardo nos contou da relação de sua tribo com o espaços sagrados; espaços que para nós, se muito, são parte da paisagem natural. O que parece ser a borda, o limite do perímetro urbano, para ele, é parte essencial da conexão com Deus. Aquilo que para o paulistano é território, para o construtor é área habitacional em potencial, para o gestor público é problema ambiental, para ele é terra ancestral. O que para nós são terras da diáspora, para ele e seu povo é a terra prometida, é o torrão onde suas raízes precisam estar firmadas.

Ana Maria trouxe uma notícia espantosa. Ela mesma se identifica como membro do povo Kariri da Paraíba, etnia que a história oficial informa ter sido extinta. Mas contra as narrativas consagradas e difundidas, os Kariri não só estão vivos, como estão lutando para reconstruir suas comunidades em suas terras ancestrais. A relação de proximidade conosco salta aos olhos: também não disseram que os bnei anussim desapareceram na história? Também não disseram que o retorno dos marranos era impossível? Tal como nós, que vamos despertando, reunindo-nos, construindo e reconstruindo nossas comunidades, os Kariri estão recompondo sua identidade, língua, costumes, aldeias.

É muito bonito ver que o pão nos aproxima, que a mão estendida revela a bondade de Deus. Que no meio da cidade idólatra de si mesma os homens em busca de sentido se reconhecem, encontram-se não pela contingência do movimento dos indivíduos atomizados, mas pelas circunstâncias proféticas arranjadas pela Providência. Nesses tempos de homogeneização despersonalizante, quando muito se creem autênticos por copiar modelos seriais, destacam-se como um clarão os que buscam, desesperadamente, manifestar a luz de sua identidade, dada por Deus, na construção de suas comunidades.

E que logo as nossas cidades tornem-se comunidades de comunidades, espaços organicamente articulados, genuínas, legítimas e verdadeiras.

Andre Tavares

Indígenas e Judeus em SP