Comunidade Sinagoga sem Fronteiras

Depoimento de José Luiz Goldfarb - Inauguração da sede da SSF em SP

“…Mas o domingo ainda traria muitas e fascinantes surpresas. Após ler trabalhos de pós-graduação que avalio na PUC-SP, decidi prestigiar meu grande amigo Gilberto Venturas, Rabino Ventura, que inaugurou perto de minha casa, na Rua Sampaio Vidal, 1065, a Sinagoga Sem Fronteiras.
Creio que acompanho a missão judaica de Gilberto Venturas há mais de duas décadas. Inicialmente, no final dos anos 90, como diretor de cultura judaica na Hebraica, recebi a oferta, de grande benemérito da comunidade judaica, para contar com o trabalho de jovem talentoso para me auxiliar na promoção do judaísmo no clube A Hebraica. Marquei com o Moré Ventura na Livraria Belas Artes, onde passava minhas manhãs comandando o espaço. E foi um início de muitas manhãs de bate-papo que se prolongaram por anos. Desde a primeira manhã, simpatizei com a forma especial do Rabino Ventura abordar o judaísmo. Fiel às raizes, aberto a novidades. Sério, profundo, conhecedor das escrituras e suas inumeráveis interpretações; ao mesmo tempo um jovem ousado, utilizando recursos incríveis como música, dança, demasiado humor, uma retórica incrível. Claro que aceitei a proposta e pude contar com o Moré durante vários anos no clube. “Domingo Aventura” foi um point que por anos encantou a criançada que lotava o piso esvaziado da Sinagoga aos domingos. Lá reinava Ventura, encantando e ensinando as novas gerações. E muitas outras artimanhas engenhosas como o espaço “Sei lá”, que reunia e preparava jovens para trabalho voluntário no Lar das Crianças da CIP. Comandados por Moré Ventura, os jovens se encontravam, preparavam atividades, e as sextas a tarde maravilhavam as crianças carentes do Lar. Assim foi a memorável passagem de Ventura pela Hebraica. Mas o jovem tinha objetivos e eu fui, desde então, acompanhando sua caminhada pelas Escolas Judaicas, suas andanças pela periferia de São Paulo, suas participações em manifestações na rua contra o antissemitismo. Vi sua família sempre querida demais crescendo.
E de repente, numa tarde de agosto, presencio uma nova etapa para o Rabino. Há anos acompanho sua Sinagoga sem Fronteiras, e agora ele desembarca em São Paulo inaugurando uma sede para o movimento. Uma casa incrível nos Jardins, repleta de animados seguidores; gente saindo pelo ladrão, por todos os buracos.
O que pode significar a data de ontem? Sem dúvida, o começo de algo quase inacreditável. Rabino Ventura poderá agora abrir seus longos e generosos braços para centenas, milhares de brasileiros que querem redescobrir e assumir suas raizes judaicas. Cristãos Novos tão estudados por Anita Waingort Novinsky da USP, que ontem foi homenageada na Sinagoga Sem Fronteiras de São Paulo. Anita Waingort Novinsky é de certa forma a fada madrinha de tudo que está acontecendo. Há décadas estabeleceu cientificamente, em sua pesquisa histórica, com vasta documentação recolhida por ela na Torre do Tombo em Portugal, as raizes judaicas do Brasil.
Agora as descobertas de Anita Waingort Novinsky se projetaram para além do acadêmico, para transformar vidas que o Rabino abre as portas de sua nova Casa para recebe-las.
Fui convidado a falar e lembrei dos ensinamentos do Rabino Nilton Bonder sobre os profetas de Israel: “diferentemente de seus ancestrais videntes, os profetas bíblicos não são profetas que labutam na dimensão do tempo, mas na dimensão do espaço, do lugar. Os profetas bíblicos se propõem ver o que os outros não vêem – não necessariamente no tempo, mas no lugar. Suas profecias não eram sobre o que iria acontecer, apesar de muitas vezes serem assim, compreendidas, mas sobre o que estava acontecendo. Eles não anteviam o futuro, mas viam o presente com tanta transparência que podiam alertar sobre o futuro contido neste presente… Eles descobriam “janelas” que não serviam para averiguar os tempos futuros, mas os diversos lugares contidos no que nos parece só um lugar… O que lhes era mostrado não era o que estava por vir, mas um lugar distinto que existia no lugar que percebiam.” (trecho do livro: “Portais Secretos: acessos arcaicos à internet” do Rabino Bonder).
Assim, lembrei dos ensinamentos de Bonder para tentar explicar a importância do que presenciava naquele domingo abençoado. Enxerguei os ensinamentos dos profetas de Israel, iluminando Rabino Ventura. Voltemos : “…Despertava pela primeira vez o ser humano para a pergunta ‘onde estamos e onde poderíamos estar?’, ao invés de ‘de onde viemos e para onde vamos?’…”
De repente percebi em meio a muita emoção o caráter histórico e transformador que a inauguração da Sinagoga Sem Fronteiras em São Paulo pode e deverá significar.
O espírito dos profetas estava ali vivo e atuante.”
Mazal Tov Rabino Ventura. Espero estar a altura para colaborar com tão profícuo projeto.
Jose Luiz Goldfarb, Acessor da presidência e diretor de cultura judaica do clube A Hebraica.